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Em toda parte e em lugar nenhum: o que está documentado sobre visibilidade antes do segundo turno

Em 14 de outubro, uma reportagem da NOS, a emissora pública holandesa, afirmou que, nas redes sociais, um dos dois candidatos do segundo turno da eleição presidencial parecia estar em toda parte, e o outro em lugar nenhum. Ela não citava nenhum estudo nem conjunto de dados. Suas evidências eram o relato de uma campanha, uma única busca que a repórter fez no Instagram, uma ordem do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a primeira resposta da Meta.

O segundo turno é em 25 de outubro. Aqui está o que foi medido, o que a Meta admitiu, o que o tribunal e o Ministério Público Federal fizeram e o que não está documentado, para que você possa avaliar por conta própria a próxima afirmação desse tipo. Como o nosso post anterior sobre influência on-line, este não cita nenhum candidato nem partido; os títulos de algumas fontes, sim. “Primeiro colocado” e “segundo colocado” se referem ao primeiro turno, em 4 de outubro. As citações de fontes em inglês são tradução nossa.

O que foi medido

Engajamento, contado por empresas comerciais. Essas empresas vendem análises de redes sociais e não publicam um método completo: são números do setor. A HypeAuditor concluiu que, de 24 de agosto a 23 de setembro, os posts do primeiro colocado no Instagram tiveram cerca de 150.000 curtidas cada um, contra cerca de 50.000 nos do segundo colocado. A DSC Lab, que somou curtidas e comentários no Instagram de 14 de setembro a 2 de outubro, encontrou a mesma diferença por post, 329.367 contra 137.675, mas contou o segundo colocado à frente em seguidores (15,4 milhões contra 11,9 milhões), em engajamento total (28,9 milhões contra 16,8 milhões) e em visualizações (349,8 milhões contra 155,8 milhões), com 210 posts contra 51. Poucos posts que atraem muita gente cada um, ou muitos posts que atraem menos: as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, e nenhuma é “lugar nenhum”.

Testes do que as plataformas mostram. O TecMundo informou em 8 de outubro que tinha feito buscas no Instagram em vários celulares, cada um conectado a uma conta diferente. O perfil oficial de nenhum dos dois candidatos apareceu entre os primeiros resultados para o próprio nome; digitar o nome de usuário completo levava cada um ao topo. A Meta disse ao TecMundo: “não recomendamos contas oficiais de candidatos registradas no TSE nas superfícies dos nossos aplicativos, incluindo a pesquisa”. Isso segue uma regra do TSE em vigor desde 2024: as plataformas que usam sistema de recomendação (recommender system) “deverão excluir dos resultados” os perfis que os candidatos informaram à Justiça Eleitoral, e o que é postado neles, salvo o impulsionamento pago. Uma conta não oficial com o nome de um candidato ainda pode ser recomendada. Por isso, uma busca, em uma conta, mostra pouco.

A regra nem sempre foi cumprida: um colunista do Metrópoles encontrou contas de candidatos que a coluna não seguia em 3, depois em 13, dos 30 primeiros posts do feed do Instagram da própria coluna em agosto, e o laboratório de pesquisa NetLab UFRJ encontrou 24 entre 1.873 recomendações do TikTok em setembro. É pouco para dizer se algum dos lados ganhou com isso.

Uma ferramenta de IA que atendeu um nome e não o outro. Em 14 de outubro, Terra e Olhar Digital relataram que a Meta AI no WhatsApp gerava uma imagem de campanha com o primeiro nome e o número de urna do primeiro colocado, e recusava o mesmo pedido para o segundo colocado. A Meta, citando as regras eleitorais, estendeu então o bloqueio de imagens de candidatos aos primeiros nomes e aos números de urna. Os testes mostram a assimetria; não mostram a causa.

O que a Meta admitiu, e o que nega

Em 10 de outubro, a campanha do segundo colocado acionou o TSE alegando que a Meta havia restringido seu alcance em benefício do adversário: uma afirmação contestada, que a Meta nega. A primeira resposta da Meta: “As alegações são simplesmente falsas e não encontram respaldo nos fatos.”

A manifestação da Meta de 12 de outubro está sob sigilo; o Metrópoles noticiou o incidente dos Reels e a negativa da Meta, e o partido da campanha autora da ação resumiu o restante. A Meta admite duas falhas. Em 23 de setembro, desativou a conta de anúncios da campanha porque duas restrições anteriores “foram erroneamente classificadas como graves”, e a reativou “em pouco mais de uma hora”. Em 7 de outubro, os contadores de visualizações dos Reels ficaram bloqueados das 15:50 às 20:49, horário de Brasília, para criadores “em mais de cem países”. A Meta diz que a distribuição não foi afetada, que a distribuição da conta oficial do candidato esteve, naquele dia, “substancialmente acima de sua própria linha de base recente” e que “não há qualquer evidência tecnicamente verificável de seletividade ou manipulação”. Da rede de 255 perfis citada na ação, número tirado de um levantamento do Instituto Democracia em Xeque, a Meta diz ter analisado os 35 que conseguiu identificar, desativado 7 e não ter encontrado entre eles comportamento inautêntico coordenado (coordinated inauthentic behaviour). Isso cobre 35 perfis, não 255. Os dados por trás de tudo isso não são públicos.

O que o tribunal e o Ministério Público fizeram

Em 10 de outubro, um ministro do TSE deu à Meta 48 horas para preservar seus registros, informar perfil a perfil todas as medidas aplicadas desde 16 de agosto, explicar o que houve em 23 de setembro e em 7 de outubro e dizer se aplica a regra de recomendação “de forma idêntica para as duas candidaturas”. “Os fatos narrados”, diz a decisão, “ocorrem em ambiente que somente a representada controla.” O ministro não havia, naquele momento, reconhecido a existência de discriminação algorítmica, informou o Congresso em Foco. A Meta pediu mais 48 horas. Até 15 de outubro, não encontramos decisão. Atualização, 19 de outubro de 2026: em 15 de outubro, o ministro concedeu uma liminar determinando tratamento igualitário aos dois candidatos do segundo turno, sob pena de multa diária, ao mesmo tempo em que descartou, “por ora”, manipulação a favor ou contra qualquer das candidaturas; o plenário a referendou por unanimidade em 16 de outubro.

Na mesma semana, o tribunal suspendeu um site que oferecia criptomoedas por posts de apoio ao primeiro colocado, por haver “indícios de que o projeto ultrapassava a manifestação espontânea de apoio político” (9 de outubro), e deu ao Google 24 horas para explicar respostas de IA que atribuíam ao segundo colocado “declarações falsas e inexistentes” (13 de outubro).

Em 14 de outubro, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (MPF/PFDC) abriu um procedimento sobre a Meta e o X, depois que quatro organizações da sociedade civil apresentaram “mais de mil relatos” de perfis e postagens derrubados. As plataformas têm cinco dias para dizer se as suspensões decorrem de ordens judiciais ou de algoritmos. Relatos reunidos pelas próprias organizações não medem com que frequência cada lado é restringido.

O que não está documentado

Nenhum estudo independente com método publicado mostra que uma plataforma tenha contido um candidato ou impulsionado o outro nesta campanha. Débora Salles, do NetLab UFRJ, disse à DW: “É muito difícil afirmar que há uma interferência na campanha […], somente com base nos dados que conseguimos ter acesso hoje. Não é que essa interferência não possa existir, mas as plataformas hoje funcionam como uma caixa-preta”. Por isso o favorecimento deliberado continua contestado: de fora, não pode ser comprovado nem descartado, e a negativa também não pode ser verificada.

Como um lado pode parecer estar em toda parte sem que ninguém tenha escolhido isso

Cada item está documentado; nenhum foi medido nesta eleição.

Então pergunte: o que foi medido, por quem, com que método? Por post ou no total? Uma busca, ou muitas? A fonte é parte da disputa? As duas partes já deram ao tribunal a sua versão; o tribunal pediu os dados.

Como um feed ranqueado decide o que você vê está em How It Works (em inglês); o que se sabe de outras eleições, em Elections & Democratic Harm (em inglês). Vamos reler estas fontes depois do segundo turno e corrigir este post se alguma delas mudar.

Fontes

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