Eleições & danos à democracia
A ligação entre o design das plataformas e os danos à democracia ficou impossível de ignorar em 2016. Desde então, ela vem sendo documentada em detalhe.
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2016: as primeiras operações em grande escala documentadas
A Internet Research Agency (IRA), da Rússia, conduziu operações sistemáticas para influenciar a eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos. Perfis falsos de americanos, conteúdo inflamado explorando divisões raciais e políticas, anúncios pagos em rublos. Tudo isso está documentado no Relatório Mueller (2019) e no relatório em cinco volumes da Comissão de Inteligência do Senado dos EUA — o relato público mais completo. O próprio depoimento das plataformas ao Congresso confirmou o alcance: o conteúdo da IRA pode ter chegado a 126 milhões de pessoas no Facebook e a cerca de 20 milhões no Instagram; o Twitter notificou depois cerca de 1,4 milhão de pessoas; no YouTube, o Google encontrou 18 canais e 1.108 vídeos, com cerca de 309.000 visualizações nos EUA no total.
Dados de até 87 milhões de perfis do Facebook foram coletados sem consentimento e repassados à Cambridge Analytica, que os usou em seu trabalho de micro-targeting político para campanhas nos EUA no ciclo eleitoral de 2016. A afirmação de que os mesmos dados decidiram o referendo do Brexit é outra, e mais fraca: o Information Commissioner's Office (ICO), a autoridade de proteção de dados do Reino Unido, investigou e concluiu que os dados coletados — referentes a eleitores registrados nos EUA — não poderiam ter sido usados no referendo. Que os dados foram coletados e repassados está confirmado. Que serviram à campanha presidencial, não: o ICO suspeitou que parte deles foi usada na eleição presidencial de 2016, mas não foi “possível determinar” quais dados foram usados em alguma parte específica de uma campanha; se o direcionamento mudou o resultado é contestado.
Micro-targeting
Dirigir uma mensagem sob medida a um público muito restrito — às vezes a indivíduos — definido por características inferidas, e não por grandes recortes demográficos. Na política, isso significa que eleitores diferentes veem apelos diferentes, otimizados para cada um, que mais ninguém vê, o que torna difícil examinar ou checar a campanha como um todo. Seu poder real de persuasão é genuinamente debatido; sua opacidade, não.
Fontes
- Matz, Kosinski, Nave & Stillwell (2017), Psychological targeting as an effective approach to digital mass persuasion, PNAS 114(48).
- Tappin, Wittenberg, Hewitt, Berinsky & Rand (2023), Quantifying the potential persuasive returns to political microtargeting, PNAS 120(25).
- Coppock, Hill & Vavreck (2020), The small effects of political advertising are small regardless of context, message, sender, or receiver, Science Advances 6(36).
Como o algoritmo amplifica a polarização política
A atualização do algoritmo do Facebook em 2018, criada para promover as “Interações Sociais Significativas” (Meaningful Social Interactions), foi estudada empiricamente com dados dos Estados Unidos e da Itália. Uma pesquisa revisada por pares (Germano, Gómez e Sobbrio, Journal of Public Economics, 2026) concluiu que a atualização contribuiu para o aumento do extremismo ideológico e da chamada polarização afetiva nos dois países. Com base nessas evidências, uma decisão comercial sobre um produto contribuiu para mudanças na opinião política em dois países — dados de questionários, não um experimento. Os maiores experimentos sobre a questão não encontraram essa mudança. Pesquisadores que trabalharam com a Meta alteraram os feeds de dezenas de milhares de usuários americanos que aceitaram participar, durante os três meses em torno da eleição de 2020 — um feed cronológico no lugar do ranqueado, nenhum recompartilhamento ou um terço a menos de conteúdo de fontes com as mesmas posições — e a polarização e as atitudes políticas não se moveram de forma mensurável. Esses estudos têm limites próprios: três meses, uma eleição e, como críticos argumentam em uma carta à Science, as mudanças de emergência que a Meta fez no ranking depois da votação, que alteraram o que o grupo de comparação via. A leitura justa é mais estreita que a popular: o ranking decide o que as pessoas veem; o seu efeito medido sobre as opiniões políticas em poucos meses é pequeno ou nulo, e o quanto uma única mudança de ranking desloca a polarização não está resolvido.
Polarização afetiva (affective polarisation)
Não é discordar mais sobre políticas públicas, e sim antipatizar com o outro lado e desconfiar dele cada vez mais — passar a ver os adversários como inimigos, e não como concidadãos que estão errados. É o tipo de divisão que os feeds ordenados por engagement mais recompensam, porque o desprezo e o conteúdo de “nós contra eles” circulam mais longe do que a concordância. Ela corrói o terreno comum de que a democracia precisa, mesmo quando as opiniões das pessoas sobre políticas concretas quase não mudam.
Fontes
- Iyengar, S. et al. (2019), The Origins and Consequences of Affective Polarization in the United States, Annual Review of Political Science 22.
Um estudo interno do Facebook de 2016 sobre grupos políticos na Alemanha constatou que 64% de todas as entradas em grupos extremistas tinham vindo das próprias ferramentas de recomendação da plataforma. O que um sistema de recomendação (recommender system) faz de forma confiável é baratear o caminho até o conteúdo extremo, e até as outras pessoas que o procuram, e servir esse material de preferência a quem já pende para esse lado; se ele impulsiona a escalada por conta própria é contestado. O conteúdo político está entre os que mais geram indignação, e o algoritmo não tem nenhuma noção de saúde democrática.
Romênia, 2024: uma eleição presidencial anulada
Em novembro de 2024, Călin Georgescu, um candidato ultranacionalista pouco conhecido, venceu o primeiro turno da eleição presidencial da Romênia com 23% dos votos, depois de aparecer nas pesquisas anteriores à votação atrás de pelo menos outros cinco candidatos. Os serviços de inteligência romenos tornaram públicos documentos afirmando que Georgescu tinha recebido amplificação algorítmica coordenada e promoção paga no TikTok. O Tribunal Constitucional anulou a eleição — o que foi noticiado como a primeira vez que um país da UE anulava uma eleição por alegações de interferência online. O processo eleitoral foi reiniciado do zero.
As autoridades romenas pediram à Comissão Europeia que investigasse o papel do TikTok com base no Digital Services Act. O TikTok informou ter desarticulado pequenos grupos de contas coordenadas que promoviam Georgescu. Os documentos de inteligência apontavam uma amplificação algorítmica maior do que essas contas, sozinhas, poderiam explicar. Esses documentos também foram contestados: uma investigação do site de notícias Snoop.ro, com base em informações da autoridade fiscal, concluiu depois que uma campanha de influenciadores que acabou promovendo Georgescu tinha sido paga por um partido rival pró-UE; e a anulação foi criticada por especialistas em direito constitucional e pelo governo dos EUA, enquanto outros a defenderam como “uma expressão de militant democracy”. O que está confirmado é a decisão do tribunal e a admissão, pelo próprio TikTok, de grupos de contas coordenadas; quem pagou pelo quê, e quanto o sistema de recomendação acrescentou, continua em parte em aberto.
O que dizem os serviços de inteligência
Em 1º de novembro de 2024, quatro dias antes da eleição presidencial dos EUA, o ODNI, o FBI e a CISA divulgaram uma declaração pública conjunta confirmando que a Rússia conduzia operações de influência contra a eleição. Quando o AIVD holandês publicou seu relatório anual de 2025, sua diretora-geral foi citada pela NOS classificando o quadro de ameaças como sem precedentes nos oitenta anos do serviço. O BfV alemão registrou um aumento de 46% nos crimes ligados ao extremismo, e grupos de chat online foram apontados como “catalisadores” da radicalização.
O órgão regulador de mídia dos Países Baixos, o Commissariaat voor de Media, publicou em maio de 2026 um relatório que conclui que os feeds algorítmicos são “comprovadamente arriscados para a nossa democracia”, porque influenciam o que os cidadãos veem e quem eles seguem, e pediu uma aplicação mais rigorosa da legislação europeia já existente.
O argumento estrutural
Eleições democráticas exigem que os cidadãos possam formar opiniões genuínas a partir de informações corretas sobre o mundo. Um sistema que amplifica de forma sistemática conteúdo inflamado e polarizador, verdadeiro ou falso — porque ele gera engagement — está em tensão estrutural com essa exigência. Este não é, antes de tudo, um argumento sobre uma eleição ou uma plataforma em particular. É um argumento sobre o que os ambientes de informação fazem com as condições de que a democracia precisa.
Como sabemos — o que está confirmado, e o cuidado com “isso mudou o resultado”
Esta página separa de propósito três coisas que costumam ser misturadas. Confirmado: as operações da IRA e seu alcance (Mueller, Comissão de Inteligência do Senado, depoimentos das plataformas); a coleta de dados da Cambridge Analytica; a anulação na Romênia (uma decisão judicial). Contestado: se o micro-targeting ou as operações de influência de fato mudam o resultado de eleições — cientistas políticos são céticos de que a persuasão nas urnas seja tão poderosa quanto o marketing dessas ferramentas dá a entender; e o quanto o ranqueamento por engagement move a opinião política — o estudo sobre a atualização do algoritmo do Facebook em 2018 encontra uma contribuição para a polarização, a partir de dados de questionários, não de um experimento. Refutado: que os dados coletados pela Cambridge Analytica decidiram o Brexit (ICO do Reino Unido).
Por que a distinção importa. O argumento do site não precisa que nenhuma eleição em particular tenha sido decidida por uma plataforma. O que as evidências sustentam é a afirmação estrutural — de que feeds otimizados para engagement degradam de forma sistemática as condições de informação de que a democracia depende. Exagerar dizendo que uma eleição foi decidida enfraqueceria justamente o argumento que estamos fazendo, porque permitiria refutá-lo por um detalhe técnico.
Fontes
- Mueller Report (2019).
- US Senate Intelligence Committee Report on Russia (2019–2020, cinco volumes).
- Joint ODNI / FBI / CISA statement on Russian election influence efforts, 1º de novembro de 2024.
- Matz, Kosinski, Nave & Stillwell (2017), Psychological targeting as an effective approach to digital mass persuasion, PNAS 114(48).
- Iyengar, S. et al. (2019), The Origins and Consequences of Affective Polarization in the United States, Annual Review of Political Science 22.
- Guess, A.M. et al. (2023), How do social media feed algorithms affect attitudes and behavior in an election campaign?, Science 381(6656), 398–404 — experimento da eleição americana de 2020, feito com a Meta: três meses de feed cronológico no Facebook e no Instagram “não alteraram de forma significativa os níveis de polarização em torno de temas, polarização afetiva, conhecimento político ou outras atitudes centrais”.
- Nyhan, B. et al. (2023), Like-minded sources on Facebook are prevalent but not polarizing, Nature 620, 137–144 — reduzir em cerca de um terço a exposição a fontes com as mesmas posições, para 23.377 usuários durante a eleição americana de 2020, não teve efeito mensurável sobre a polarização afetiva, o extremismo ideológico nem outras seis atitudes pré-registradas.
- Bagchi, C., Menczer, F., Lundquist, J., Tarafdar, M., Paik, A. & Grabowicz, P.A. (2024), Social media algorithms can curb misinformation, but do they?, eLetter na Science, 26 de setembro de 2024 (preprint arXiv:2409.18393) — argumenta que o estudo do feed cronológico não levou em conta as mudanças temporárias de emergência que a Meta fez no feed depois da eleição de 2020, o que alterou o que o grupo de comparação via.
- Germano, F., Gómez, V. & Sobbrio, F. (2026), Ranking for Engagement, Journal of Public Economics 255 (versão de working paper em acesso aberto, Barcelona School of Economics) — estudo empírico sobre a atualização do algoritmo do Facebook em 2018.
- Euronews (23 de dezembro de 2024), Romanian centre-right party's TikTok campaign used for far-right win — a apuração do Snoop.ro e da autoridade fiscal sobre a campanha de influenciadores financiada pelo PNL.
- Audiência da Subcomissão de Justiça do Senado dos EUA (31 de outubro de 2017) — depoimento das plataformas sobre o alcance da IRA: reportagem da PBS NewsHour / AP (126 milhões no Facebook; Google: 18 canais no YouTube, 1.108 vídeos, 309.000 visualizações nos EUA).
- Reuters (1º de novembro de 2017), Here's How Many People Saw Russian-Backed Election Posts on Instagram, Fortune — o diretor jurídico do Facebook, Colin Stretch, à Comissão de Inteligência do Senado: 16 milhões de americanos a partir de outubro de 2016 e cerca de quatro milhões a mais antes disso.
- Twitter Public Policy (19 de janeiro de 2018, atualizado em 31 de janeiro de 2018), Update on Twitter's review of the 2016 US election — “Cerca de 1,4 milhão de pessoas já receberam uma notificação do Twitter.”
- Horwitz, J. & Seetharaman, D. (26 de maio de 2020), Facebook Executives Shut Down Efforts to Make the Site Less Divisive, Wall Street Journal — a apresentação de 2016 com os “64%”.
- Curtea Constituțională a României (6 de dezembro de 2024), Hotărârea nr. 32 — a decisão unânime que anulou todo o processo eleitoral presidencial; Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (11 de fevereiro de 2025), Georgescu v. Romania (nº 37327/24) — a queixa do candidato contra a anulação, declarada inadmissível; a decisão do Tribunal Europeu informa 22,94% como a votação dele no primeiro turno.
- Comissão Europeia (17 de dezembro de 2024), Commission opens formal proceedings against TikTok on election risks under the Digital Services Act.
- Kliment, A. (6 de dezembro de 2024), In historic first, an EU country annuls an election over claims of TikTok interference, GZERO Media.
- TikTok (6 de dezembro de 2024, atualizado em 17 de dezembro de 2024 e 7 de janeiro de 2025), Continuing to protect the integrity of TikTok during Romanian elections — uma rede de 78 contas operando a partir da Romênia que promovia Călin Georgescu, desarticulada no fim de novembro, e uma rede maior que promovia o partido AUR e, em menor medida, Georgescu.
- Serviço Romeno da RFE/RL (14 de fevereiro de 2025), Romanian Opposition Welcomes Vance Comments On Election Annulment, Radio Free Europe/Radio Liberty — o vice-presidente dos EUA, JD Vance, na Conferência de Segurança de Munique: a Romênia cancelou a eleição com base nas “suspeitas frágeis de uma agência de inteligência”.
- Kuti, C. (10 de dezembro de 2024), On Means and Ends: The Annulment of the Romanian Presidential Elections, Verfassungsblog — o Tribunal agiu de ofício e anulou todo o processo, embora “não haja nenhuma disposição constitucional ou legal” para nenhuma das duas coisas.
- Iancu, B. (13 de maio de 2025), Constitutional Death Foretold? The Romanian Elections Saga in a Nutshell, Review of Democracy (CEU Democracy Institute) — a decisão nº 32 se apoiou numa “disposição guarda-chuva” do artigo 142 e em relatórios de inteligência “em geral crípticos”.
- Cornea, R. (1º de abril de 2025), Romanian Militant Democracy in Action, Verfassungsblog — defende a decisão nº 32 como “uma expressão de militant democracy”.
- Atlantic Council (New Atlanticist) — análise da anulação da eleição na Romênia.
- Tribunal Constitucional da Romênia anula o primeiro turno (dezembro de 2024) — PBS NewsHour / AP.
- Information Commissioner's Office (ICO) do Reino Unido (2 de outubro de 2020), carta ao DCMS Committee que encerra a investigação sobre a Cambridge Analytica — sem envolvimento no referendo da UE; os dados do Facebook se referiam a eleitores dos EUA; seu uso na eleição presidencial de 2016 nos EUA é suspeito, não determinado (Anexo 2, parágrafos 18 e 30).
- Facebook (4 de abril de 2018), An Update on Our Plans to Restrict Data Access on Facebook — a divulgação de que dados de até 87 milhões de pessoas podem ter sido compartilhados com a Cambridge Analytica.
- AIVD Jaarverslag 2025 (abril de 2026).
- NOS (23 de abril de 2026), Rusland, China, terroristen: AIVD zag 'in 80 jaar niet meer dreiging dan nu' — “In de tachtig jaar dat de AIVD en zijn voorlopers bestaan, was er niet eerder een dreigingsbeeld zoals nu”.
- BfV Verfassungsschutzbericht 2024 (junho de 2025) — 57.701 crimes ligados ao extremismo; grupos de chat extremistas como “catalisadores” da radicalização.
- Commissariaat voor de Media, Naar democratisch gezonde feeds (maio de 2026).
- EUvsDisinfo disinformation case database.