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Manosphere

Um ecossistema de ligações frouxas que reforça de forma consistente uma visão de mundo que atribui as dificuldades masculinas principalmente às mulheres e ao feminismo — alcançada um passo recomendado de cada vez, com um algoritmo que otimiza para engagement ajudando a levar as pessoas adiante.

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O que é

A manosphere não é uma comunidade nem uma ideologia única. É um ecossistema de espaços online com ligações frouxas entre si — comunidades do Reddit, canais do YouTube, contas do TikTok, fóruns, servidores do Discord — que compartilham uma mesma tese: a de que os homens estão em desvantagem na sociedade atual, e de que essa desvantagem é causada principalmente pelo feminismo e pelas mulheres. Essas comunidades vão de conteúdo relativamente convencional sobre direitos dos homens a artistas da sedução (pickup artists), à filosofia “red pill”, a comunidades incel e ao extremismo aceleracionista.

Esses espaços não são novos. Fóruns de direitos dos homens e de artistas da sedução cresceram ao longo dos anos 2000; a influente comunidade “red pill” do Reddit foi criada em 2012; e, em meados dos anos 2010, pesquisadores e jornalistas já rastreavam como os sistemas de recomendação (recommender systems) levam as pessoas de um desses espaços a outro. O que mudou ao longo da década foi o alcance — as mesmas ideias, levadas de fóruns de nicho para os vídeos de grande público e os feeds de vídeos curtos.

O que liga esses espaços não é a participação, e sim o caminho. A pesquisa documenta um caminho da radicalização — até que ponto os próprios sistemas de recomendação empurram as pessoas ao longo dele é contestado — em que o conteúdo convencional sobre masculinidade leva a conteúdo com um enquadramento abertamente mais antifeminista, que leva a comunidades com visões mais extremas, que em alguns casos levam a comunidades que descrevem a violência como justificada. Ninguém percorre o caminho inteiro por causa de uma única recomendação. A direção é constante.

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Caminho da radicalização (radicalisation pipeline)

O trajeto que vai do conteúdo comum ao conteúdo extremo — muitas vezes chamado de “rabbit hole”. O que está bem estabelecido é mais restrito do que o nome sugere: a plataforma reduz o custo de encontrar conteúdo extremo e de encontrar outras pessoas que o compartilham, e entrega esse material de preferência a quem já tende para esse lado. Se as recomendações provocam a escalada por si só é algo contestado entre os pesquisadores — a versão honesta está na página sobre radicalização.

Fontes

O papel do algoritmo

O pesquisador Luc Cousineau, da Dalhousie University (2025), argumenta que homens jovens são expostos a conteúdo antifeminista não por escolha, mas pelo algoritmo — esse conteúdo lhes é recomendado com base em sinais de engagement de vídeos a que assistiram por outros motivos. Quanto do percurso se deve ao algoritmo e quanto à própria procura da pessoa é algo contestado (a página Caminhos da radicalização expõe os dois lados); o que os estudos de auditoria mostram é conteúdo antifeminista sendo recomendado a contas que não o tinham procurado. O algoritmo não compartilha a ideologia. Ele destaca o conteúdo que provoca reações emocionais fortes, inclusive conteúdo que afaga o sentimento de injustiça de quem assiste ou que oferece uma comunidade a quem está isolado. Conteúdo sobre gênero que gera indignação tem bom desempenho nas métricas de engagement. O algoritmo destaca mais dele.

A investigação de Kevin Roose de 2019 no New York Times, “The Making of a YouTube Radical”, documentou esse caminho de recomendações em detalhe — acompanhando o histórico de YouTube de um jovem, mais de 12.000 vídeos a partir de 2015, desde um vídeo de autoajuda recomendado a ele no fim de 2014 até a política de extrema direita, ao longo dos anos seguintes. Roose reconstruiu o trajeto a partir do próprio histórico de visualizações do homem; o caso ilustra o mecanismo, não o quanto ele é comum.

A vulnerabilidade de fundo

Os sentimentos que a manosphere usa como porta de entrada são reais. Homens jovens em muitos países enfrentam dificuldades genuínas: solidão, insegurança econômica, papéis sociais pouco claros, menos vínculos. São preocupações legítimas. A explicação que a manosphere dá para a causa delas — a de que as mulheres e o feminismo são os responsáveis — é a explicação fabricada, não o problema real.

A pesquisa sobre quem percorre esse caminho — como o estudo de Botto e Gottzén sobre os relatos dos próprios homens jovens a respeito de como entraram nessas comunidades e saíram delas — aponta a vulnerabilidade como a variável-chave. Homens jovens que passam por uma crise, por isolamento ou por incerteza sobre a própria identidade têm uma probabilidade desproporcionalmente maior de percorrer o caminho inteiro. O algoritmo não distingue entre um usuário que está explorando questões sobre masculinidade e um usuário que está em crise — ele otimiza para engagement de qualquer forma.

O que a pesquisa mostra — e o que não mostra

A manosphere reforça de forma consistente uma visão de mundo que atribui as dificuldades masculinas principalmente às mulheres e ao feminismo. Ela não produz violência de forma consistente. A ligação com danos no mundo real está documentada, mas exige nuance: uma minoria dos casos envolve violência física; a maioria envolve mudanças na visão de mundo, nos padrões de relacionamento e no comportamento social, que têm efeitos posteriores documentados sem violência física.

Os serviços de segurança descrevem um padrão mais amplo, do qual este fenômeno é uma vertente: jovens, alguns deles menores de idade, radicalizados em grande parte online. O diretor-geral do MI5, McCallum, afirmou em outubro de 2024 que 13% das pessoas investigadas pelo MI5 por terrorismo tinham menos de 18 anos — uma proporção que triplicou em três anos — e que o terrorismo de extrema direita se concentra fortemente entre os jovens, “impulsionado por uma propaganda que mostra uma compreensão astuta da cultura online”. O AIVD e o BfV descrevem o mesmo padrão entre extremistas de direita nos Países Baixos e na Alemanha. No Brasil, a ABIN atualizou em 2025 seu protocolo de prevenção do extremismo violento, que inclui os ataques a escolas, e contou 280 ameaças de ataques e 22 ataques frustrados em 2025; num encontro promovido pela agência em 2026, pesquisadores discutiram a misoginia e os fóruns virtuais que incentivam crimes. Sobre a manosphere em si, serviços forenses de saúde mental dos Países Baixos relatam um número crescente de meninos e homens cujo comportamento problemático — misógino e, às vezes, violento — eles atribuem em parte a ela (De Waag, Fivoor, Transfore, 2026).

Para pais de rapazes

Confrontar diretamente o conteúdo da manosphere costuma ser contraproducente — pode reforçar a identificação, como descreve a pesquisa sobre reatância na página Compartilhe. Manter o vínculo, fazer perguntas sinceras sobre o que ele está assistindo e por quê, e oferecer outros modelos de masculinidade e de comunidade funciona melhor. Fazer prebunking das técnicas de manipulação vai mais longe do que discutir o conteúdo ponto a ponto: o jogo Bad News (getbadnews.com) põe quem joga para usar técnicas de manipulação em que esse conteúdo também se apoia, entre elas o apelo à emoção, a polarização e o descrédito dos críticos; jogar juntos abre o assunto sem virar sermão.

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Inoculação (inoculation, prebunking)

Criar resistência à manipulação expondo alguém a uma forma enfraquecida da técnica antes que a pessoa a encontre de verdade — o equivalente psicológico de uma vacina. Pesquisas lideradas por Sander van der Linden, de Cambridge, mostram que aprender a reconhecer táticas (eleger um bode expiatório, falsos dilemas, indignação fabricada) vale para vários temas, enquanto desmentir fato por fato, depois do ocorrido, muitas vezes não vale. É por isso que o site prefere ensinar a técnica a discutir o conteúdo.

Como sabemos — as evidências do caminho da radicalização e a distinção entre visão de mundo e violência

O caminho da radicalização é documentado de duas formas. Qualitativamente, Roose (2019) acompanhou passo a passo o histórico de visualizações de um usuário, de vídeos de autoajuda até a política de extrema direita, ao longo de vários anos, e pesquisadores como Cousineau (2025) argumentam o mesmo a partir do estudo atento das próprias comunidades. Quantitativamente, estudos de auditoria controlados — entre eles o teste do YouTube com contas experimentais feito pelo Institute for Strategic Dialogue — encontram conteúdo antifeminista recomendado a contas de rapazes que não o procuraram. As duas abordagens apontam na mesma direção, com a ressalva de sempre: auditorias de sistemas de recomendação são retratos instantâneos de um sistema opaco e em mudança constante.

A distinção que mantemos com cuidado. A afirmação bem fundamentada diz respeito à visão de mundo: o ecossistema reforça de forma consistente a visão que atribui as dificuldades masculinas principalmente às mulheres e ao feminismo. O desfecho muito mais raro é a violência. Confundir as duas coisas exageraria as evidências e, ao tratar todo rapaz que explora esses espaços como um futuro agressor, produziria justamente o afastamento que empurra as pessoas mais para dentro. A vulnerabilidade — crise, isolamento, incerteza sobre a identidade — é a variável que prevê quem percorre o caminho inteiro, e é por isso que o vínculo funciona melhor do que o confronto.

Fontes

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