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Antes do segundo turno: o que está documentado sobre influência on-line

O Brasil escolhe seu presidente no segundo turno, em 25 de outubro. Em torno do primeiro turno, em 4 de outubro, muito se disse sobre quem poderia estar moldando a campanha on-line. Este post reúne o que foi documentado, por quem e como, e o que não foi, para que você possa avaliar por conta própria a próxima afirmação que encontrar.

Usamos apenas registros oficiais e pesquisas ou checagens que publicam seu método. Não citamos nenhum candidato nem partido no texto; os títulos de algumas das fontes, sim. As evidências abaixo tratam de práticas, e várias delas tinham como alvo os dois principais candidatos.

As regras

As regras de propaganda eleitoral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alteradas para 2026 pela Resolução 23.755, de 2 de março de 2026, fazem quatro coisas que importam aqui:

  • Proíbem deepfakes, conteúdo em áudio ou vídeo “gerado ou manipulado digitalmente” para criar, substituir ou alterar a imagem ou a voz de uma pessoa, usado para prejudicar ou favorecer uma candidatura.
  • Material de campanha feito com IA precisa dizer isso “de modo explícito, destacado e acessível” e informar a tecnologia usada.
  • Novidade de 2026: fica proibido publicar, republicar ou impulsionar com pagamento novos conteúdos feitos por IA com a imagem, a voz ou a fala de um candidato ou de uma pessoa pública, desde 72 horas antes até 24 horas depois do fim da votação, mesmo com rótulo.
  • Também é novidade: sistemas de IA oferecidos pelas plataformas não podem “ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar” candidatos, mesmo quando o usuário pede.

Nem todos concordam com os controles do tribunal sobre a desinformação. Os observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) registraram que alguns grupos políticos relataram desinformação e posts de ódio circulando apesar deles, enquanto outros argumentaram que tais controles “limitaram a liberdade de expressão e constituem uma forma de censura”.

O que a agência de inteligência diz, e o que não diz

O relatório público da ABIN, a agência de inteligência do Brasil, Desafios de Inteligência – Edição 2026, publicado em dezembro de 2025, chama a possibilidade de interferência externa na eleição de “fator de risco que não pode ser subestimado”. Ele lista os meios pelos quais essa interferência “pode ocorrer”: campanhas de desinformação sofisticadas, ataques cibernéticos à infraestrutura eleitoral e financiamento oculto de grupos políticos. Não cita nenhum país. É uma avaliação de risco, não uma constatação. O mesmo capítulo afirma que a estrutura dos algoritmos das plataformas é “desenhada para maximizar o engajamento”.

O que não foi encontrado

No dia do primeiro turno, o presidente do TSE disse a jornalistas: “Até o momento, não temos nenhum indicativo concreto de interferência internacional”. O relato do próprio tribunal sobre o pronunciamento daquela noite diz: “Não foram constatados fatos que indicassem interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro”. Os observadores da OEA citaram essa frase no relatório preliminar de 6 de outubro.

Portanto, até 9 de outubro, nenhuma autoridade brasileira documentou uma operação estrangeira de influência pelas redes sociais contra esta eleição. Afirmar que ela existe vai além do registro; afirmar que a questão está encerrada de vez, também.

O que foi documentado

Posts pagos sem pagador conhecido. O site de checagem Aos Fatos encontrou pelo menos 11 contas estrangeiras que publicaram no X, entre 18 e 21 de setembro, posts que promoviam um candidato à Presidência com o rótulo “parceria paga” do próprio X. A análise publicada em 25 de setembro afirma que “permanece desconhecido quem pagou pelos anúncios”. Outro candidato pediu ao TSE, em 23 de setembro, a remoção dos posts; até 9 de outubro, não encontramos decisão.

Conteúdo de IA em volume, contra e a favor dos dois principais candidatos. O projeto VigIA, da agência de checagem Lupa, que usa ferramentas de detecção da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coletou 1.941 posts políticos suspeitos entre 16 de agosto e 28 de setembro. Dos 972 que analisou, 920 foram confirmados como feitos ou alterados com IA. Desses, 554 eram deepfakes, e só 371 traziam algum rótulo de IA. Os dois candidatos que agora disputam o segundo turno foram os mais retratados, em posts que os promoviam e em posts que os atacavam. Na janela em torno do primeiro turno em que novos conteúdos de IA com candidatos estavam proibidos, de 1º a 5 de outubro, a Lupa ainda contou 64 desses posts, 37 deles deepfakes.

São contagens, não alcance. O presidente do TSE disse em 4 de outubro, segundo a Agência Brasil, que o temor de uma onda de deepfakes também não se concretizou, sem ocorrências de repercussão significativa. As duas coisas podem ser verdade.

Anúncios durante a proibição, inclusive anúncios falsos em nome do tribunal. A propaganda eleitoral paga na internet é proibida desde 48 horas antes até 24 horas depois da votação. O NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez buscas nas bibliotecas de anúncios das plataformas nessa janela e encontrou 568 anúncios irregulares nas plataformas da Meta. Outros seis imitavam o TSE e ofereciam uma forma inexistente de votar pelo celular ou de casa; alguns levavam a sites que pediam o CPF de quem os visitava. A Meta respondeu que “a amostragem deste relatório não reflete a escala do nosso trabalho de integridade”.

Como checar e denunciar

  • Siade é o canal anônimo do TSE para conteúdo falso sobre urnas eletrônicas, o processo de votação ou páginas e perfis que imitam a Justiça Eleitoral. O TSE explica como usá-lo.
  • Pardal é o aplicativo do TSE para propaganda eleitoral irregular, inclusive propaganda sem identificação na internet e vídeos enganosos de candidatos. Ele pede que você entre com o e-Título ou a conta gov.br.
  • Checadores que publicam seus métodos: Aos Fatos, Lupa e Comprova, um projeto de redações liderado pela Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Uma afirmação que não pode ser rastreada até um documento merece ser tratada com cautela, seja qual for o candidato que ela ajuda. O padrão mais amplo e o que se sabe de outros países estão em Elections & Democratic Harm (em inglês). Vamos reler estas fontes depois do segundo turno e corrigir este post se alguma delas mudar.

Fontes

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