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title: "Ciência"
description: "Muitos resultados publicados não se confirmaram quando outros cientistas repetiram os estudos — a crise da replicação. Os próprios cientistas descobriram: ciência como deve ser. Inclusive a Wikipédia."
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updated: 2026-10-25
license: "CC BY-NC-SA 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)"
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> **Conteúdo em revisão por voluntários** Falantes nativos estão conferindo esta tradução com o original em inglês. [Como traduzimos e como informar um erro (em inglês)](https://attentionmachine.org/en/about/translations/#volunteer-review)

# Ciência

O melhor método que temos para entender o mundo. Como ele se corrige. Como o dinheiro o distorce. Por que as duas histórias importam.

## Como a ciência se corrige

A crise da replicação (replication crisis) é a descoberta de que muitos resultados publicados em psicologia e medicina não podiam ser reproduzidos. Ela foi identificada e divulgada por cientistas, gerou um movimento global de reforma dentro da área e deixou sinais mensuráveis de que a prática de pesquisa mudou. O artigo de 2015 da Open Science Collaboration na _Science_[^src-open-science-2015] trouxe a crise da replicação a público: o grupo replicou 100 estudos publicados e constatou que muitos não podiam ser reproduzidos. Isso é doloroso. Também é o mecanismo de correção funcionando.

> **Crise da replicação (replication crisis)**
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> A constatação, a partir dos anos 2010, de que uma grande parte dos resultados publicados — sobretudo em psicologia e em partes da medicina — não podia ser reproduzida quando equipes independentes repetiam os estudos. Parece uma acusação contra a ciência, e em parte é. Mas a replicação é, ela mesma, um método científico, e a crise foi encontrada, nomeada e enfrentada _por cientistas_. É justamente a autocorreção de que trata o resto desta seção, funcionando em público.
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> **Fontes**
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> - Open Science Collaboration (2015), [_Estimating the reproducibility of psychological science_](https://doi.org/10.1126/science.aac4716), Science.
> - Begley, C.G. & Ellis, L.M. (2012), [_Raise standards for preclinical cancer research_](https://doi.org/10.1038/483531a), Nature 483, 531–533.

Depois, a área mediu a si mesma. Um estudo de 2023 na _PNAS_[^src-youyou-2023] usou um modelo de aprendizado de máquina para estimar a probabilidade de replicação de mais de 14.000 artigos de psicologia publicados entre 2000 e 2019 — um mapa de toda a disciplina, que mostra onde o problema é mais grave. E uma análise de 2025 de 240.000 artigos de psicologia[^src-bogdan-2025] publicados entre 2004 e 2024 constatou que, em todas as subáreas, o estudo típico agora relata evidências estatísticas bem mais fortes do que antes da crise — um sinal indireto, mas consistente, de que as reformas mudaram a prática. A área identificou o problema, publicou sobre ele e mudou a prática. Isso não é um fracasso da ciência. É a ciência fazendo o que foi projetada para fazer.

## Uma ressalva honesta

Estudos influentes continuam sendo citados depois de terem falhado na replicação. O mecanismo de correção é real, mas imperfeito e lento. O artigo de 2022 de Simine Vazire e Alex Holcombe[^src-vazire-2022], na _Review of General Psychology_, faz uma avaliação honesta de onde a autocorreção funciona e de onde ela não funciona. A ciência é o melhor método disponível; não é infalível.

## A dúvida fabricada como estratégia

Desconfiar da ciência por inteiro não é uma posição neutra. É uma posição que beneficia atores específicos. O livro _Merchants of Doubt_, de Naomi Oreskes e Erik Conway[^src-oreskes-2010] (2010), documenta como a indústria do tabaco foi pioneira em financiar contrapesquisas para criar uma aparente controvérsia científica onde quase não havia controvérsia nenhuma — especificamente para atrasar a regulação. A indústria de combustíveis fósseis usou a mesma estratégia no caso da ciência do clima[^src-supran-2017]. Os ativistas antivacina usam algumas das mesmas táticas — distorcem a ciência, trocam de hipótese e atacam os críticos[^src-kata-2012]. Documentos internos da indústria do tabaco, tornados públicos por meio de processos judiciais[^src-truth-tobacco-1969], mostram que essa estratégia era explícita e deliberada.

> **Dúvida fabricada (manufactured doubt)**
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> Uma estratégia, não um estado do conhecimento: financiar e amplificar de propósito pesquisas contrárias para fazer uma questão já resolvida parecer em aberto, e assim adiar qualquer ação. Oreskes e Conway rastrearam a mesma pequena cartilha do tabaco à chuva ácida e ao clima. O que a denuncia é o objetivo: não estabelecer uma verdade concorrente, mas fabricar controvérsia aparente _suficiente_ para que “a ciência ainda não chegou a uma conclusão” soe razoável.
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> **Fontes**
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> - Oreskes, N. & Conway, E.M. (2010), _Merchants of Doubt_, Bloomsbury.

Quando alguém disser a você que todo consenso científico é fabricado, vale perguntar: quem ganha com você acreditar nisso? Quem ocupa o vazio quando você deixa de consultar fontes verificáveis?

## Quando a ciência é comprada

A dúvida fabricada tem uma irmã mais discreta: pagar pela resposta. Os casos abaixo estão documentados nos próprios papéis internos das empresas, e todos podem ser verificados nos links abaixo.

**Tabaco.** Um documento de planejamento da Brown & Williamson de 1969 (a “Smoking and Health Proposal”[^src-brown-williamson-1969]) resumiu a estratégia em uma linha: _“A dúvida é o nosso produto.”_ Ao lado da campanha da dúvida, a indústria financiou pesquisas pensadas para chegar a conclusões convenientes[^src-oreskes-2010]. Milhões de documentos internos, tornados públicos por meio de processos judiciais, podem ser consultados por qualquer pessoa no arquivo Truth Tobacco Industry Documents[^src-truth-tobacco-1969], da Universidade da Califórnia. Você pode ler a estratégia nas palavras da própria indústria.

**Açúcar.** Nos anos 1960, a Sugar Research Foundation pagou cientistas de nutrição de Harvard — cerca de US$ 50.000 em valores de hoje, sem que isso fosse divulgado — por uma revisão no _New England Journal of Medicine_ que minimizava o papel do açúcar nas doenças cardíacas e apontava a gordura como culpada. Isso moldou as recomendações alimentares por décadas. O caso foi documentado a partir da correspondência interna da fundação por Kearns, Schmidt e Glantz (2016)[^src-kearns-2016], no _JAMA Internal Medicine_.

**Petróleo.** Supran e Oreskes (2017)[^src-supran-2017] analisaram quatro décadas de comunicação da ExxonMobil e encontraram uma discrepância sistemática: as pesquisas da própria empresa, revisadas por pares, reconheciam a mudança climática causada pelo ser humano, enquanto os informes publicitários que ela pagava promoviam dúvidas sobre o assunto.

**E o padrão como um todo.** Não se trata de um punhado de casos isolados. Uma revisão Cochrane de 75 artigos[^src-lundh-2017] constatou que pesquisas sobre medicamentos e dispositivos patrocinadas pela indústria chegam a conclusões favoráveis ao patrocinador com frequência significativamente maior do que pesquisas com financiamento independente sobre as mesmas questões. É o “efeito do financiamento” (“funding effect”), medido em toda a literatura.

Repare em quem expôs cada caso: pesquisadores e jornalistas que aplicaram o método documental e científico aos registros da própria indústria. A lição não é desconfiar da ciência por inteiro — essa é a cartilha da dúvida fabricada funcionando em você. A lição é perguntar, diante de qualquer estudo isolado e conveniente: _quem pagou por isso?_ E apoiar as defesas estruturais que existem por causa desses casos: a declaração obrigatória de conflitos de interesse, o pré-registro de ensaios clínicos (publicar o plano de um estudo antes de ele começar, para que um resultado incômodo não possa sumir em silêncio) e o financiamento público independente.

## Wikipédia — um caso imperfeito, mas instrutivo

A Wikipédia não é uma fonte primária — o estudo, o documento ou o registro original —, e sim um resumo do que outros publicaram, e ela mesma diz isso[^src-wikipedias-own]: um ponto de partida para a pesquisa, não algo para citar. Ela já foi palco de guerras de edição, de tentativas de manipulação e de erros factuais que persistiram por anos. Nada disso está em disputa.

Ela também é um dos exemplos mais instrutivos do mecanismo de correção de que trata esta seção. Todo artigo da Wikipédia tem uma aba “Discussão” no alto da página. Ela leva à página de discussão[^src-wikipedias-own] do artigo, onde os editores debatem por escrito como o artigo deve mudar — ou, se ninguém a criou ainda, permite que qualquer pessoa a comece. Há um histórico de versões[^src-wikipedias-own], onde cada alteração fica registrada, e um sistema de avisos[^src-wikipedias-own] — o mais conhecido é “\[carece de fontes?]”, na Wikipédia em inglês “\[citation needed]” — que marca as afirmações contestadas ou sem fonte. Quando a Wikipédia erra, o processo de correção fica visível. Compare isso com um AI Overview do Google, um feed de notícias selecionado por algoritmo ou um post viral nas redes sociais: nenhum deles mostra suas correções como faz uma página de discussão, nenhum avisa de forma confiável quando o conteúdo é contestado e nenhum mantém um registro público do que cada pessoa viu.

O valor da Wikipédia está na transparência das correções, não em ser infalível. Em nossa leitura, em temas científicos e técnicos com comunidades ativas de editores especialistas ela costuma ser confiável; em temas politicamente contestados e em acontecimentos recentes, exige mais cautela. As listas de referências — as citações no fim dos artigos bem cuidados — representam anos de trabalho editorial para encontrar os estudos e documentos originais. Comece pelas referências, não pelo texto.

**Como sabemos — as evidências sobre replicação e os limites da autocorreção**

A afirmação de que a ciência se autocorrige também se apoia em evidências, não em suposições. Em 2015, a Open Science Collaboration[^src-open-science-2015] refez diretamente 100 estudos. O estudo da PNAS de 2023 (Youyou, Yang & Uzzi[^src-youyou-2023]) seguiu outro caminho: treinou um modelo de aprendizado de máquina com características de artigos que, sabidamente, tinham replicado ou não, e depois atribuiu uma pontuação a mais de 14.000 artigos de psicologia de 2000–2019. O resultado mostra que a replicabilidade varia muito conforme a subárea e o método, em vez de ser um único número para a área inteira. Bogdan (2025)[^src-bogdan-2025], em uma revista da APS, acompanhou os valores-p relatados em 240.355 artigos de 2004 a 2024 e constatou que eles ficaram bem mais fortes ao longo da década seguinte à crise, em todas as subáreas. Não é uma medida direta da replicabilidade, mas é a marca mais provável de amostras maiores e do pré-registro. Três métodos diferentes, um mesmo quadro: a área percebeu, publicou e mudou a forma como trabalha.

**Uma correção nossa.** Uma versão anterior desta página citava o estudo dos 240.000 artigos, depois o removeu como inexistente e passou a atribuir ao artigo da PNAS[^src-youyou-2023] uma tendência de aumento da replicabilidade. As duas mudanças estavam erradas: o estudo grande existe (Bogdan 2025[^src-bogdan-2025]), e o artigo da PNAS não relata nenhuma tendência. O registro de correções documenta o caso.

**O limite honesto.** Vazire e Holcombe (2022)[^src-vazire-2022] documentam onde a autocorreção emperra: resultados desacreditados continuam sendo citados por anos, os incentivos ainda premiam mais a novidade do que a replicação, e a correção é lenta. Portanto, “a ciência se autocorrige” é uma afirmação sobre a existência e a direção do mecanismo, não sobre ele ser rápido ou completo. É exatamente esse o contraste com sistemas — feeds, AI Overviews, propaganda — que não têm mecanismo nenhum desse tipo.

## Fontes

[^src-begley-2012]: Begley, C.G. & Ellis, L.M. (2012), [_Raise standards for preclinical cancer research_](https://doi.org/10.1038/483531a), Nature 483, 531–533.

[^src-open-science-2015]: Open Science Collaboration (2015), [_Estimating the reproducibility of psychological science_](https://doi.org/10.1126/science.aac4716), Science.

[^src-youyou-2023]: Youyou, W., Yang, Y. & Uzzi, B. (2023), [_A discipline-wide investigation of the replicability of Psychology papers over the past two decades_](https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.2208863120), PNAS.

[^src-bogdan-2025]: Bogdan, P.C. (2025), [_One Decade Into the Replication Crisis, How Have Psychological Results Changed?_](https://doi.org/10.1177/25152459251323480), Advances in Methods and Practices in Psychological Science 8(2) — 240.355 artigos, 2004–2024.

[^src-vazire-2022]: Vazire, S. & Holcombe, A.O. (2022), [_Where are the self-correcting mechanisms in science?_](https://doi.org/10.1177/10892680211033912), Review of General Psychology 26(2).

[^src-oreskes-2010]: Oreskes, N. & Conway, E.M. (2010), _Merchants of Doubt_, Bloomsbury.

[^src-truth-tobacco-1969]: [Truth Tobacco Industry Documents](https://www.industrydocuments.ucsf.edu/tobacco/) — Universidade da Califórnia em São Francisco; arquivo pesquisável de documentos internos da indústria tornados públicos por meio de processos judiciais (a “Smoking and Health Proposal”, de 1969, contém a frase “Doubt is our product” — “A dúvida é o nosso produto”).

[^src-kearns-2016]: Kearns, C.E., Schmidt, L.A. & Glantz, S.A. (2016), [_Sugar Industry and Coronary Heart Disease Research: A Historical Analysis of Internal Industry Documents_](https://doi.org/10.1001/jamainternmed.2016.5394), JAMA Internal Medicine 176(11).

[^src-kata-2012]: Kata, A. (2012), [_Anti-vaccine activists, Web 2.0, and the postmodern paradigm – an overview of tactics and tropes used online by the anti-vaccination movement_](https://doi.org/10.1016/j.vaccine.2011.11.112), Vaccine 30(25), 3778–3789.

[^src-brown-williamson-1969]: Brown & Williamson (1969), [_Smoking and Health Proposal_](https://www.industrydocuments.ucsf.edu/docs/psdw0147), Truth Tobacco Industry Documents, Bates 690010951–690010959 — “Doubt is our product since it is the best means of competing with the ‘body of fact’ that exists in the mind of the general public.”

[^src-supran-2017]: Supran, G. & Oreskes, N. (2017), [_Assessing ExxonMobil's climate change communications (1977–2014)_](https://doi.org/10.1088/1748-9326/aa815f), Environmental Research Letters 12(8).

[^src-lundh-2017]: Lundh, A. et al. (2017), [_Industry sponsorship and research outcome_](https://doi.org/10.1002/14651858.MR000033.pub3), Cochrane Database of Systematic Reviews.

[^src-wikipedias-own]: As próprias páginas da Wikipédia sobre como ela funciona: [_Help: Talk pages_](https://en.wikipedia.org/wiki/Help:Talk_pages) (o que é uma página de discussão e como chegar a ela); [_Help: Page history_](https://en.wikipedia.org/wiki/Help:Page_history) (cada edição registrada); [_Wikipedia: Citation needed_](https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Citation_needed) (o aviso para uma afirmação sem fonte); [_Wikipedia: Academic use_](https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Academic_use) (uma enciclopédia é “a starting point for research, not an ending point” — um ponto de partida para a pesquisa, não um ponto de chegada).

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